quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

ficção e realidade " P U L I Ç A "

POR Quintino de Quadros Vieira

Era madrugada de domingo na capital mineira. Dentre os mais de dois milhões de belo-horizontinos, quatro cidadãos comuns saíam de uma festa particular. O jovem dirigia o seu carro em uma das avenidas principais da cidade. Chovia. O trânsito tranquilo. Ele fora obrigado a parar o veículo em linha dupla, o que as nossas leis infalíveis proíbem. Estava esperando a chuva diminuir para que uma senhora e sua filha pudessem descer e entrar em casa.

De repente, uma viatura policial estaciona logo atrás do seu automóvel. Quatro policiais estão de plantão. Um desce e começa a proferir “elogios” ao motorista, suposto criminoso. Uma simples advertência se transforma numa brutal intimidação. O rapaz, já todo molhado, ouve, quieto, as reclamações e lições de moral. O despreparo da Polícia fica evidente.

A autoridade, depois de praticar sua retórica, aprendida em anos e anos de estudos no Colégio Militar, desloca-se em direção à viatura, em que seus companheiros, sentadinhos, assistiam ao show de camarote. Liga a máquina, acelera, não aciona a sirene, ultrapassa com os semáforos no vermelho e vai à procura de mais vítimas, digo, de delinquentes, continuando a ronda do dia.

Do outro lado, perplexos e paralisados, o rapaz, sua irmã, advogada, a senhora e sua filha, advogada, se indignam com o fato. O jovem, estudante de Medicina, afirma estar enojado com o serviço de segurança pública prestado pelas nossas ditas autoridades. Presta queixa na Delegacia mais próxima, acompanhado de suas três testemunhas.

Lá é tratado seguindo as normas da " P u l i ç a ". A denúncia é uma das raras tentativas de mostrar ao público como anda o seu interesse público. A segurança pública, a educação pública, a saúde pública andam de mal a pior num país em que o direito à propriedade é sagrado. Então, dê a Deus.


Quintino de Quadros Vieira é somente escritor

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