quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

ficção e realidade Um certo Zé da Silva

POR Quintino de Quadros Vieira

Dia 17 de outubro de 2010. As eleições presidenciais já aconteceram. Pela segunda vez, o Brasil elege, em primeiro turno e por maioria absoluta, um operariado para governar a nação tupiniquim. Mas desta vez o marketing não fez efeito algum na imagem do novo presidente. Nascido em Jequié, na Bahia, Luiz José da Silva, o Zé da Silva, aparentemente concentrava um ar pesado, de revolucionário mesmo, barbudo, cabeludo e com trajes simples de um trabalhador do campo. Nem as edições globais na televisão conseguiram evitar que Zé da Silva fosse eleito. A população brasileira não brincou. Cansada de promessas vazias, 75% do eleitorado votaram num político e num partido inexperiente, sem representatividade na Câmara ou no Senado, mas que insistia que seu projeto e sua proposta de governo era fazer as coisas com honestidade, honradez e levando a cidadania a sério. Sem brincadeiras.

Do outro lado, um outro Luiz José da Silva acabava de ganhar na loteria. Capitalista nato e nascido em São Paulo, capital, como gostava de ressaltar, Dr. Silva era um produtor rural rico, aposentado e cada dia mais mesquinho. O sonho dele era comprar mais fazendas e consolidar o Brasil como o país dos latifúndios. Temeroso com a eleição do novo presidente brasileiro, tratou de comprar as fazendas com o prêmio acumulado que ganhou antes que o tal de Zé da Silva tomasse posse em 1º de janeiro de 2011. Para o Dr. Silva, fosse qualquer governo, quem quisesse fazer reforma agrária em seu país, teria que comprar todas as suas terras pelo quíntuplo do preço que ele pagou. Era a mais valia do lucro máximo.

Em 1º de janeiro de 2011, Zé da Silva recebeu a faixa presidencial de seu companheiro, que prometia voltar em 2014. A solenidade de posse foi simples. Zé da Silva não queria muito holofote e nem mídia em cima dele. Após um mês de governo, o novo presidente brasileiro teve a ideia do Programa "Terra Zero", que pretendia fazer uma reforma agrária justa no país. Só que tinha um problema. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) estava sucateado e 75% das propriedades rurais do Brasil estavam em poder do Dr. Silva que, para proteger seus pertences, contratou jagunços mascarados de seguranças particulares e colocou-os nos limites territoriais de cada área sua. Não havia chance nem de um protesto à beira da estrada já asfaltada.

Indo sempre pelo caminho da conversa franca e aberta, Zé da Silva tentava convencer o Dr. Silva a vender suas terras para o governo a preços mais amigáveis. Passou os quatro anos de seu governo insistindo nesta ideia. O Programa "Terra Zero" não foi para frente. Da parte de Zé da Silva, vontade política não faltou. Faltou compaixão da parte dos Doutores Silvas que existem no Brasil.

Sem vontade para tentar a reeleição, Zé da Silva completa o seu mandato tranquilo. O Deus-Mercado comandava tudo autonomamente, sem mais necessidade do braço direito regulador do Estado, já que o esquerdo estava quebrado. Zé da Silva deixou o governo no dia 1º de janeiro de 2015 e devolveu a faixa presidencial para o seu antecessor: Luiz Inácio Lula da Silva. Logo no primeiro dia de seu governo, Lula anunciou: lanço hoje o Programa "Terra Para Todos", nem que faça o Estado ficar refém dos Silva eternamente. E isso foi feito, com o apoio do marketing, é claro.


Quintino de Quadros Vieira é somente escritor
texto escrito em 17 de outubro de 2007, às 20h e 40min

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